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Ingo Müller | A fogueira facial do presidente

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Um dos ditos populares preferidos da minha mãe é “língua não tem osso”. Perdi a conta de quantas vezes ouvi esta frase que significa, basicamente, “cuidado com o que você fala” – um conselho e tanto para quem, anos depois, seguiu carreira na comunicação. Nosso presidente, infelizmente, não teve a mesma educação e por isso acabou de queimar a língua, ou melhor, a cara toda.

Uma das maiores bravatas de Bolsonaro sempre foi a suposta ausência de corrupção de seu governo – uma afirmação feita graças ao desmonte de órgãos de fiscalização e controle, constante troca de investigadores, no arquivamento de inquéritos e no desrespeito a listas tríplices mas que, até o momento, ainda se sustentava de forma capenga pela ausência de um flagrante contundente que nem ele mesmo pudesse ignorar.

Esse flagrante enfim veio na quarta-feira, quando o ex-ministro da educação Milton Ribeiro foi preso pela Polícia Federal em Santos, interior de São Paulo, como parte de uma operação que investiga corrupção e tráfico de influência para a liberação de verbas do FNDE, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação.

Para recordar, gravações de áudio atestam que Ribeiro negociava a liberação de verbas do MEC conforme a indicação de um gabinete paralelo formado por dois pastores da Assembleia de Deus, Gilmar Santos e Arilton Moura, que também foram alvos da operação. A propina corria na forma de dinheiro e ouro que, como nos lembra Silvio Santos, vale mais do que dinheiro.

Tudo isso ocorria a mando de quem? Segundo a denúncia, de Jair Bolsonaro. Registros do Gabinete de Segurança Institucional indicam que os dois pastores tiveram dezenas de acessos a gabinetes do palácio do planalto, e eu tenho cá minhas dúvidas se essas visitas eram pra montar algo inocente como um clube do livro. Aliás, falando em livro, Ribeiro também foi “homenageado” pela prefeitura de Salinas, nosso destino favorito no vindouro mês de julho, com a impressão de bíblias em que a foto do ministro estava estampada… esquisito, né?

Bíblias distribuídas em Salinópolis com fotos do ex-ministro, Milton

As suspeitas estavam no ar mas, para blindar o aliado, o presidente dobrou a aposta: em live do dia 24 de março, Bolsonaro disse que Ribeiro era vítima de uma “covardia”, e que colocaria a “cara no fogo” pelo ex-ministro. O problema, presidente, é que toda cara de pau é, invariavelmente, inflamável.

Diante do incêndio, restou a Jair mudar de tom e tentar esquecer o passado. Bolsonaro já se apressou em falar, hoje mesmo, que Ribeiro deve responder pelos seus atos – uma tentativa de evitar que o escândalo cole nele a poucos meses da eleição. Só que a internet, que não esquece e nem perdoa, está fazendo o favor de lembrar meio mundo da declaração incendiária do presidente, inundando a rede com mais memes do que o gabinete do ódio consegue ignorar.

Além do rosto do presidente, a corrupção no governo Bolsonaro vai inflamar a disputa eleitoral. Resta saber quem, até outubro, ainda vai querer subir nesse palanque em chamas ao lado do chefe do executivo.

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