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Ingo Müller | O insuportável choro do nerd reacionário

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Senhor dos Anéis é uma destas franquias capazes de hipnotizar os fãs de fantasia nos contextos mais inusitados – como neste domingo, quando ficamos grudados na TV esperando a transmissão da final do futebol americano nos EUA mais interessados nos comerciais do que no jogo em si, já que o intervalo do superbowl trouxe o aguardado trailer da série “Os Anéis do Poder”, baseada na obra de J.R.R Tolkien.

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A expectativa por essa obra é tanta que a gente aguenta até assistir esporte do qual não entendemos só para ver como a Segunda Era vai ser retratada na TV. O que não dá pra aguentar, infelizmente, é o nerd reaça reclamando da escalação dos atores Ismael Cruz Córdova e Sophia Nomvete para os papéis do elfo Arondir e da princesa dos anãos Disa. O motivo? Os dois atores são negros.

Segundo os reacionários da internet, a reclamação não tem relação com racismo – seria apenas, eles dizem, uma cobrança por fidelidade ao material original: estes atores não poderiam estar na série porque não existem elfos e anões (sic) negros na obra de Tolkien.

Esta argumentação parece ignorar duas coisas fundamentais: 1) elfos e anãos não existem. São personagens de fantasia, e portando podem ser retratados como a imaginação desejar; e 2) “Anéis do Poder” não é uma obra de Tolkien, e os dois personagens em questão foram criados para a série – eles não aparecem no Silmarillon, ou em qualquer outra obra do escritor.

É óbvio que os atores citados são vítimas de preconceito racial, mesmo que os racistas usem Tolkien como escudo pro seu preconceito. – o que é, além de covarde, injusto: o próprio autor expressou em vida desprezo pela segregação racial no contexto da segunda guerra mundial. Tolkien se opunha ao preconceito contra os judeus, ao tratamento dos negros durante a segregação na África do Sul e também criticava a forma como a Grã-Bretanha retratava os alemães em propagandas de guerra, alegando que a desumanização do inimigo era uma tática digna do ministro da propaganda Nazista Joseph Goebbels.

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Só que, a despeito de qualquer crença pessoal, os textos de Tolkien refletem um protagonismo típico do século passado. Para citar um exemplo, não existem mulheres n’O Hobbit e podemos contar nos dedos a participação feminina no restante da saga: Galadriel é poderosa, Arwen é bela e Eówyn tem um papel importante, mas nenhuma delas acompanha a Sociedade do Anel em suas viagens – elas tem momentos sob os holofotes, mas não são personagens principais.

As adaptações cinematográficas da obra de Tolkien preenchem estas lacunas dando mais destaque para personagens existentes (como Liv Tyler na trilogia de SDA) ou através da inclusão de personagens novos (como Tauriel, na medonha Trilogia d’O Hobbit). As duas decisões tiveram sua dose de resistência, mas a branquitude das protagonistas acabou diluindo o ódio dos comentários de quem hoje acusa a franquia de ter sido contaminada pela “justiça social” (seja lá o que essas pessoas acreditem que isto significa).

Felizmente este grupo de nerds racistas, embora barulhento, não é maioria entre os apreciadores de Tolkien. Prova disto que as principais comunidades de fãs e estudiosos da obra do escritor divulgaram uma nota de repúdio conjunta ao pensamento preconceituoso de quem critica a cor da pele dos atores da série.

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De acordo com a nota “muitos desses comentários, publicados em diversas redes sociais, não constituem simples liberdade de expressão ou posicionamento crítico. Em vez disso, são discursos meramente passionais, carregados de visões subjetivas e preconceituosas, destinadas aos atores e às atrizes. As características físicas, étnicas, sociais e de gênero não prejudicam a fidedignidade de uma adaptação”.

A carta é assinada por mais de 30 grupos de fãs, e encerra lamentando a falta de sensibilidade de algumas pessoas para compreender os valores transmitidos pelo autor, já que “As obras de Tolkien transmitem mensagens de amizade, companheirismo, fidelidade, amor ao próximo, compaixão, inclusive a união entre povos diversos em prol de um bem comum” – bem comum este que, no nosso mundo, certamente deveria envolver montar uma sociedade para destruir o racismo nas profundezas da Montanha da Perdição.

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